Peixes Ornamentais em Aquário

Gaúchos do Aquário

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Texto

Ainda era criança quando a curiosidade me despertou o interesse pela vida aquática. Muitas vezes vi coisas que não acreditei, histórias que realmente pareciam legítimos contos de pescador. Momentos únicos que não deveriam passar despercebidos por uma máquina fotográfica.

Com o passar dos anos fui me tornando um explorador (um legítimo índio), buscando locais para novas aventuras, onde eu poderia encontrar novas espécies. Na prática, descobri que haviam algumas condições ambientais diferentes, e que isto abrigaria, peixes diferentes. Peixes que hoje ainda aguardam nome definitivo, peixes de difícil visualização por causa dos hábitos noturnos ou estranhos, peixes que ainda não foram estudados e peixes que ainda esperam o descobrimento. Características de uma complexa trama ecológica, na verdade, tão ampla quanto a própria existência do mundo, ou do simples fato de tentar entender como o universo é “infinito”(pelo menos por enquanto). Dependendo para qual lado olharmos, teremos noções de amplitude diferentes, mas é informação oferecida no ensino fundamental e não vivida por própria experiência. Muito se sabe... daquilo que os outros acham! Deveríamos seguir mais nossos instintos, os sentimentos de criatividade deveriam ser mais incentivados. Vivemos num meio que há padrão para tudo, e isto nos deixa viciados em hábitos que não facilitam estas visões de amplitude do mundo. Para aqueles que se aprofundam nos assuntos, a distância aumenta cada vez mais e mais, parecendo nunca ter fim, seja em um grande ou pequeno mundo. Acho tão interessante a vida, e penso no que eu pensava quando era guri (uns 12 anos), lembrando aonde minha imaginação poderia ou queria me levar. Esta imaginação é mais importante do que podemos pensar ou sonhar, pois a mesma nos leva ao novo em muitas ocasiões. Podendo ser uma nova idéia, ou a uma brilhante dedução. Por isto não podemos desprezar idéias e palavras de crianças... elas tem uma noção diferente do mundo! E se forem bem direcionadas, terão sempre uma visão muito promissora da vida. Resolvi então, descrever algumas experiências vividas por mim em minha jornada, para ajudar um pouco aqueles que pensam de forma parecida no que se diz respeito a peixes e aquários, e conhecer a biodiversidade nativa do Estado.

Ultimamente tenho me dedicado muito aos “gaúchos do aquário”, pois são fascinantes, e infelizmente muito menos comentados e estudados que os comercializados. O mais impressionante, é que parece que ao invés de diminuir, aumentam-se as descobertas, como comentei antes sobre nossas referências. O fato de estarmos com a visão treinada para este tipo de busca faz com que vejamos facilmente detalhes tão pequenos em meios confusos, não esquecendo que muitos animais têm um excelente mimetismo e passam despercebidos mesmo quando prestamos atenção. Certa vez aconteceu um fato curioso, eu e o Marcio V. Fagundes, grande amigo, presenciamos o momento em que um cardume de Limpa-fundo (Corydoras paleatus) realizava a trajetória para a reprodução. Nadando contra a corrente e em grupos sólidos organizados, como se fosse um esquema combinado. Só foi possível visualizar estes peixes por causa da transparência rara no córrego, provavelmente por ter pouca matéria orgânica em suspensão e por seu fundo ser arenoso e claro. Uma surpresa muito agradável, milhares de exemplares, na corrida da vida! Não conseguia nem imaginar quantos, pois quando os próximos iam chegando, os primeiros já não eram mais visíveis, lembrando a o infinito citado anteriormente. Muito interessante a questão do referencial, um pequeno mundo diante dos meus olhos, parecendo tão infinito de vida, parecendo a imensidão do espaço. Como sou pequeno e desprezível... fugi totalmente do assunto, voltemos! Falemos então dos interessantes peixes. Há alguns peixes nativos que podemos ver em cerca de 90% das lojas do Rio Grande do Sul (RS), conhecidos por nomes vulgares, nunca por nomeações científicas. A origem também é desconhecida por muitos, principalmente por falta de estudo e divulgação dos mesmos. Inclusive, tempos atrás Ronaldo Hilgert, outro amigo, havia me falado de uma nova descoberta, tratava-se de um “Apistograma azul” (relacionado estreitamente com Apistograma borelli regan), único exemplar deste gênero no RS e interessantíssimo aos apistomaníacos. A fauna e a flora* gaúchas são muito abundantes e variadas, e deve-se isto ao grande número de condições diferentes existentes no Estado e a grande quantidade de biótopos relativamente preservados. Combinações entre clima e regiões possibilitam evolução e abrigo para diversas espécies, inclusive para o surgimento das mesmas. O RS é um dos poucos lugares do país onde há frio e calor intensos, extremos que exigem adaptações especiais das espécies nativas. Imagine ao longo dos milhares de anos do planeta, seres altamente especializados e preparados para sobreviver, vencedores de desafios ano após ano. Partindo da idéia de que a maioria das pessoas desconhecem as riquezas naturais do Estado, resolvi descrever brevemente alguns grupos (por famílias) de peixes que podem ser introduzidos em aquário ou tanques de ornamento:

- Barrigudinhos (Poecilídeos) são os peixes ideais para aquários pequenos, pois as poucas espécies que se encontram no Estado não ultrapassam 3 e 4 cm. Conhecidos como Guaru , Barrigudinho, Madrecita, dentre outros nomes, peixes calmos e adaptam-se muito bem no aquário, podendo aumentar muito a população em pouco tempo. Não possuem cores chamativas, entretanto, no exterior há criadores trabalhando no melhoramento estético destes peixes, e conseguindo cores vivas e detalhes diferenciados, assim como nos guppies (Poecilia reticulata). O macho é um pouco menor que a fêmea e possui um órgão sexual visível chamado gonopódio, comum aos exemplares da família. Em alguns casos chegam chamar a atenção, pois o mesmo pode facilmente chegar a cerca de ¼ do tamanho do peixe. Encontrados em qualquer poça ou córrego do Estado, procuram ambientes seguros quando presentes em locais mais profundos. Em aquários grandes ou tanques , se bem plantados e com esconderijos, chegam a formar um ecossistema artificial, podendo colocar outros peixes menos amistosos com o propósito de controlar a sua população, reproduzindo um belo “biótopo” em equilíbrio. Lembrando que não é uma tarefa sempre viável e fácil, mas há aqueles que se dedicam a este tipo de hobby.

- A grande maioria dos Loricarídeos e dos Callichthídeos comercializados no Estado são de origem regional, principalmente sendo peixes de hábitos extremamente específicos e por isto, biótopos específicos. Para serem vistos, é preciso conhecimento sobre estes locais e sobre a forma de serem observados. Estes peixes possuem comportamento diferenciado na alimentação e são usados como limpadores do aquário (Limpa-fundo, Limpa-vidro, Cascudo-da-pedra, Violinha, Comedor de algas, Tamboatás, Peixe-banjo, etc...). Ocorrem diversas espécies e subespécies em nosso Estado, não há certeza de quantas. Tempos atrás descobri uma espécie que ainda não consegui identificar, mas é questão de tempo! Ela lembra um pouco a Corydoras sodalis, mas pareceu ser menos robusta e mais colorida. E também não era do gênero Coridoras, devido a morfologia da nadadeira dorsal. Cada uma das espécies pode adaptar-se melhor ou pior em diferentes condições, é importante informar-se do que é necessário e se há como misturar certos espécimes. Não seria coerente colocar peixes com hábitos semelhantes para competir em um espaço restrito.

- Os Ciclídeos, vulgarmente conhecidos como Cará e Joana (Jacundá), são peixes de grande potencial para um aquário, pois interagem com seus donos. São, sobretudo, peixes para viverem sós ou em casais, no entanto pode-se montar um ambiente para muitos ciclídeos. É preciso fornecer esconderijos e respeitar uma quantidade máxima de peixes por litro de água. Tive sempre boas experiências com ciclídeos, a Joana e o Chanchito são os meus favoritos por serem belos e diferentes. A Joana ou Jacundá pode levar algum tempo até adaptar-se com comida do tipo ração, e aceitando melhor um guisadinho ou pedacinhos de filé de peixe. Peixes que acostumam-se a comer na mão de seu dono, e reconhecem o mesmo sempre que chega perto do aquário.

- Os fantásticos Caracídeos são excelentes para aqueles que buscam formar aquários bem plantados, pois dificilmente destroem a vegetação e o seu habitat. Diferentes em tamanho e nomeados por lambari são muito usados na pesca de traíras. Todos os peixes pequenos são vulgarmente chamados de lambari, por ignorância e por falta de interesse. Já perceberam? Estes peixes delicados são criaturinhas fascinantes. A maioria é muito ágil e geralmente inquieta, mudam o comportamento de acordo com temperatura e ambiente em que estão. Em conjunto formam uma grande e suave movimentação no aquário. Existe uma vasta variedade de espécies no Estado, alguns contendo cores vivas e brilhantes, e tamanhos variados. Encontrados em todo Estado, sendo alguns exclusivos de regiões específicas e únicos no mundo todo, não havendo ocorrência em outras localidades. Percebidos facilmente ao jogar um pedacinho de pão na água, pois são os primeiros a aparecer com voracidade para buscar o suposto alimento.

- Espécies pertencentes a outras classificações são igualmente interessantes, como alguns crustáceos (lagostins, camarões e caranguejos), moluscos (caramujos e mexilhões) e plantas hidrófilas (sagitárias, higrófilas e Echinodorus spp). Muitas delas são pouco adaptáveis em aquários e tanques, sendo necessário um conhecimento maior do explorador. Peixes exóticos como o Porrudo, “Sarapó transparente”, Tuvira, Mocinha, Góbio, Peixe-faca, Muçum e Cinolébia (peixe anual) são igualmente fantásticos e muito menos conhecidos. O comportamento é notavelmente diferente em cada uma das espécies. Sempre trazendo uma ou outra surpresa interessante.

Dos peixes citados, não tive a experiência e o prazer de ter apenas o Apistograma azul, pois nem ao menos sei a localização de seus biótopos, provavelmente será uma aventura que dará muito que falar... claro que cedo ou tarde, descobrirei outra espécie para encontrar.

Vale lembrar que é preciso muita coerência ao montar um aquário, ou você poderá estar formando um campo de batalha, presenciando a morte e mutilação dos queridos peixes. Na natureza o equilíbrio entre as espécies, possibilita a interação de diversas populações de peixes e outros animais. Os peixes fazem um papel importante dentro da teia alimentar do planeta, sendo a base alimentícia exclusiva de inúmeras espécies de diferentes “classificações”. Pra não dizer que é impossível, eu diria que dificilmente acharemos este equilíbrio dentro de um aquário, impossibilitando a inclusão de algumas espécies ou de certos grupos. Quanto menor for seu aquário, menor possibilidade de adaptar certos peixes. Em relação ao aquário, é necessário um conhecimento de filtragem e iluminação, mas isto não será descrito aqui. Aqueles que estiverem interessados podem encontrar boas páginas sobre aquariofilia, recomendo algumas no final deste texto, onde poderão extrair informações preciosas para montar um aquário funcional. Forneça sempre as condições ideais para seus peixes, como uma alimentação compatível com os hábitos alimentares do peixe. Não seria interessante fornecer uma ração a base de vegetais para um peixe carnívoro! Certo? Também não seria interessante alimentar um peixe somente com carne moída, pois o mesmo necessita de nutrientes inexistentes neste alimento. Uma ração balanceada é essencial a uma boa vida.

Outra coisa que muito ocorre e que devemos ter cuidado, é não soltar peixes em locais aos quais não pertencem, intrusos ou exóticos, estes podem causar alguma mudança em um meio. As conseqüências geralmente são desastrosas, como tilápias que pouco a pouco, vêm reduzindo populações de ciclídeos silvestres por ocuparem o mesmo nicho ecológico. Ou até mesmo favorecendo na disseminação de doenças não existentes aqui, que poderia ser altamente prejudicial aos nossos queridos peixes silvestres. Um bom exemplo é a distribuição dos pardais... estas aves já são encontradas por quase todo continente americano, competindo com nossas espécies nativas.

Aos que se sentiram estimulados, dou uma dica, não basta apenas olhar uma bela paisagem, e pensar que se achará facilmente tais peixes, é preciso muita dedicação e persistência. O conhecimento não brota da noite para o dia. As habilidades de explorador, precisam ser cultivadas e trabalhadas. E tão importante quanto achar, é saber respeitar a natureza e o ser vivo, nunca realizando extrativismo incoerente, pois o mesmo colabora com a extinção e desequilíbrio de espécies importantes à cadeia alimentar. Bom senso e respeito farão um planeta mais preservado e um futuro promissor na ornamentação de aquários, lagos e fontes. E por favor, não esqueçam de consultar a lista de peixes liberados para captura, o IBAMA fornece esta lista em seu site. Cuidando isto, evita-se qualquer problema legal que se possa ter com relação a lei de proteção ambiental do nosso país.

Comentários de Leitores Comentário

Sou novo no site e no aquarismo. Fico muito feliz ao ler um texto como esse, ainda mais que sou adepto dessa filosofia da exploração de locais que a maioria das pessoas nem ao mesmo percebem. Cito a orla do Guaíba em Porto Alegre, onde podem ser encontradas algumas dessas epécies citadas. Ao comentar que tenho em um dos meus aquários plantas e animais provenientes do Guaíba, algumas pessoas chegam a me olhar com surpresa, ou até mesmo nojo (pelo fato de o manancial ser considerado muito poluído em alguns pontos). Mal sabem que é uma explosão de vida de diferentes formas, cores e beleza. Apoio iniciativas como essas, temos que valorizar o que é nosso!

Contribuído por Gui Kroeff

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